Por Gabriel Reesendi
“Que barulho é esse que não me deixa dormir? Acordei! Não era isso que você queria? Será que não é me dado nem mais o direito de sonhar? Ao menos isso, sonhar é tudo que me resta agora. Não, não é um barulho. É uma música ao cravo, não conheço essa. Por que tudo está tão escuro? Por que a única luz é essa miserável bola alaranjada do notebook que acende e apaga como um farol neste inferno escuro? Ele não sabe que eu odeio dormir no breu total que me faz sentir como se houvesse acordado cego”
“Ah, é! Ele não está mais aqui. Passo a mão por toda cama. Ele, realmente, não está mais aqui mesmo. Por que deveria? Poderia, e eu até gostaria, mas por que deveria? Contei. Já faz uma semana e eu ainda não me acostumei com a leveza do lençol ao léu cobrindo somente a mim. Me perco toda vez que não sinto seu peso amassando o seu lado da cama. Vou começar a dormir no meio a partir de agora, mas, enquanto me falta sono para cumprir com essa tarefa, tudo que posso fazer é apenas abrir as cortinas. Não importa mais o gesto que eu faça, ele não está mais aqui com o seu sono leve que o faz acordar por qualquer micromovimento meu. Que liberdade terrível!”
“Neblina?! Isso nunca aconteceu! Vivo nessa casa há anos e nunca vi neblina por essas bandas! Ela tapa qualquer coisa a um palmo à minha frente, densa como fumaça, como na época de São João. Fumaça… Incêndio?! Não… Não sinto cheiro de cinzas ao abrir a janela. Cheirinho de chuva, de planta e de terra molhada, mas não há água, não há som de chuva. Somente neblina opaca e a música no cravo que de tão distante parece um zunido”
“Eita! O quarto… está uma verdadeira zona. Roupas minhas por todos os lados. Ele odiava quando eu fazia isso. Eu reconheço meu defeito. São as briguinhas diárias que minam a relação. Os acordos quebrados, as picuinhas desnecessárias, os mesmos defeitos todo santo dia. Calma… Essas roupas não são minhas. Elas são… dele? Será que voltou? Mas se voltou, onde está? Será que veio buscar as malas?
“Caixas. Uma, duas… quatro caixas no corredor cheias com… nosso livro? Ironicamente, o único romance que havia entre nós. Não havia nossas brigas, somente as dos personagens tolos que são obrigados a fazer o que mandamos. Amávamos criá-los, amávamos vivê-los. Amava-nos…”.
Suas malas estavam no lugar das caixas. Ele disse que viria buscar os últimos pertences hoje de manhã. Ele veio, entrou, não me acordou, deixou as caixas e levou as malas sem eu perceber?! Que sossega-leão da porra foi esse que eu tomei ontem?! Poderia ter feito tudo isso sem eu ver? E se fez, por que fez dessa forma tão sorrateira? Somente para me maltratar mais com esses pensamentos obsessivos? Caralho de música! Por que não para? De onde vem? Por que tão baixa? Ele está na sala!”.
“Nada na sala. Animei-me. Fui otário… Se sou tão racional como posso ter me enchido de emoção tão facilmente? Esperança de encontrá-lo na sala me esperando e escutando uma música que eu detestaria. Já faz uma semana que o mandei embora, já deveria ter me acostumado a não me encher de esperança, nem esperar lhe encontrar no sofá ou lavando os pratos suspenso em uma perna só. Não consigo evitar, por mais que eu queira”.
Parei com isso agora! Compostura homem! Descubra o que é essa névoa que tapa tudo. Antes eu podia ver no janelão da sala a vista mais bonita desse país, com colinas decoradas pela flora da caatinga, principal razão por eu ter comprado essa casa. Nem a vista eu tenho mais, a neblina se pôs na frente de tudo. Nem mesmo o sol, a estrela magnânima, ilumina este espaço”.
“A sala está impecável, o quarto uma bagunça, o corredor cheio de caixas com nosso livro e a música… Até que está começando a ficar agradável. Tudo quase igual a uma semana atrás. Menos a música que antes era uma bossa nova e agora parece música barroca”.
– Você acordou! Trouxe pizza!
“Essa voz!”.
– Você?! O que…
– Já é tarde, você precisa comer algo. Trouxe a pizza quadrada daquele lugar.
– Você… voltou! Pensei que nunca mais voltaria. Me desculpa! Me desculpa tanto, por favor! Eu fui tão grosseiro! Tão estúpido! Eu sei, eu sei! Eu gritei de forma que não deveria ter gritado com ninguém. Me desculpe! Só quero você de volta!.
– Eu voltei, não é? É tudo que importa agora.
– Você sabe que eu tentei mudar isso em mim inúmeras vezes! Você via me esforço para ser diferente. Mas dessa vez, dessa vez eu prometo não fazer mais isso!
– Eu voltei, é tudo que importa agora.
– Tudo que importa agora! Eu quis tanto que você voltasse!
– Eu sei, por isso eu voltei. É tudo que importa agora.
– Isso! Tudo que importa agora! Nosso livro?
– Nosso romance?
– Eles trouxeram finalmente!
– A editora entregou hoje de manhã. Agora coma a pizza, você tem fome.
– Pizza? Mas acabei de acordar!
– É uma ocasião especial. Nosso recomeço.
– Está certo! Eu lhe prometi que escutaria mais, comerei então. Você está escutando essa música? Eu acordei ouvindo e não sei de onde vem. Essa pizza não tem gosto de nada. Mô, cadê você? Mô?
“Nem na sala, nem no corredor, nem no quarto. Ele sumiu. O que está acontecendo? Deixei o prato cair da minha mão e seus cacos caíram sobre meus pés sem me cortar. Está quebrado, tudo está quebrado”
– Calma, estou aqui.
– Pensei que houvesse partido novamente.
– Não, eu voltei. É tudo que importa agora.
– Eu te amo!
– Eu sei.
– Você me ama?
– Te amo mesmo dormindo até tarde.
– Você voltou, é tudo que importa agora…..
“Acordei. Deixei a janela aberta novamente. Está chovendo. Molhou tudo! Minha cabeça, meus travesseiros, as garrafas de vinho, o antidepressivo. Que combinação! Era um sonho, não é? Antes eu tivesse tido um pesadelo. A música? Ah, tá certo. Era uma recomendação aleatória do YouTube. Lembro de ter deixado a música tocando para conseguir dormir. Não consigo mais dormir sem barulho de algo, nem no escuro. Ainda é noite e quero voltar para o sonho. Quero voltar para a fantasia. Ela é tudo que importa agora”.

