My Blog https://blogvenda.neptuneinc.com.br My WordPress Blog Fri, 12 Jul 2024 23:24:04 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.2 Pesadelo https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/12/pesadelo/ https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/12/pesadelo/#respond Fri, 12 Jul 2024 23:24:04 +0000 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/?p=387 Por Gabriel Reesendi

“Que barulho é esse que não me deixa dormir? Acordei! Não era isso que você queria? Será que não é me dado nem mais o direito de sonhar? Ao menos isso, sonhar é tudo que me resta agora. Não, não é um barulho. É uma música ao cravo, não conheço essa. Por que tudo está tão escuro? Por que a única luz é essa miserável bola alaranjada do notebook que acende e apaga como um farol neste inferno escuro? Ele não sabe que eu odeio dormir no breu total que me faz sentir como se houvesse acordado cego”

“Ah, é! Ele não está mais aqui. Passo a mão por toda cama. Ele, realmente, não está mais aqui mesmo. Por que deveria? Poderia, e eu até gostaria, mas por que deveria? Contei. Já faz uma semana e eu ainda não me acostumei com a leveza do lençol ao léu cobrindo somente a mim. Me perco toda vez que não sinto seu peso amassando o seu lado da cama. Vou começar a dormir no meio a partir de agora, mas, enquanto me falta sono para cumprir com essa tarefa, tudo que posso fazer é apenas abrir as cortinas. Não importa mais o gesto que eu faça, ele não está mais aqui com o seu sono leve que o faz acordar por qualquer micromovimento meu. Que liberdade terrível!”

“Neblina?! Isso nunca aconteceu! Vivo nessa casa há anos e nunca vi neblina por essas bandas! Ela tapa qualquer coisa a um palmo à minha frente, densa como fumaça, como na época de São João. Fumaça… Incêndio?! Não… Não sinto cheiro de cinzas ao abrir a janela. Cheirinho de chuva, de planta e de terra molhada, mas não há água, não há som de chuva. Somente neblina opaca e a música no cravo que de tão distante parece um zunido”

“Eita! O quarto… está uma verdadeira zona. Roupas minhas por todos os lados. Ele odiava quando eu fazia isso. Eu reconheço meu defeito. São as briguinhas diárias que minam a relação. Os acordos quebrados, as picuinhas desnecessárias, os mesmos defeitos todo santo dia. Calma… Essas roupas não são minhas. Elas são… dele? Será que voltou? Mas se voltou, onde está? Será que veio buscar as malas?

“Caixas. Uma, duas… quatro caixas no corredor cheias com… nosso livro? Ironicamente, o único romance que havia entre nós. Não havia nossas brigas, somente as dos personagens tolos que são obrigados a fazer o que mandamos. Amávamos criá-los, amávamos vivê-los. Amava-nos…”.

Suas malas estavam no lugar das caixas. Ele disse que viria buscar os últimos pertences hoje de manhã. Ele veio, entrou, não me acordou, deixou as caixas e levou as malas sem eu perceber?! Que sossega-leão da porra foi esse que eu tomei ontem?! Poderia ter feito tudo isso sem eu ver? E se fez, por que fez dessa forma tão sorrateira? Somente para me maltratar mais com esses pensamentos obsessivos? Caralho de música! Por que não para? De onde vem? Por que tão baixa? Ele está na sala!”.

“Nada na sala. Animei-me. Fui otário… Se sou tão racional como posso ter me enchido de emoção tão facilmente? Esperança de encontrá-lo na sala me esperando e escutando uma música que eu detestaria. Já faz uma semana que o mandei embora, já deveria ter me acostumado a não me encher de esperança, nem esperar lhe encontrar no sofá ou lavando os pratos suspenso em uma perna só. Não consigo evitar, por mais que eu queira”. 

Parei com isso agora! Compostura homem! Descubra o que é essa névoa que tapa tudo. Antes eu podia ver no janelão da sala a vista mais bonita desse país, com colinas decoradas pela flora da caatinga, principal razão por eu ter comprado essa casa. Nem a vista eu tenho mais, a neblina se pôs na frente de tudo. Nem mesmo o sol, a estrela magnânima, ilumina este espaço”.

“A sala está impecável, o quarto uma bagunça, o corredor cheio de caixas com nosso livro e a música… Até que está começando a ficar agradável. Tudo quase igual a uma semana atrás. Menos a música que antes era uma bossa nova e agora parece música barroca”.

– Você acordou! Trouxe pizza!

“Essa voz!”.

– Você?! O que…

– Já é tarde, você precisa comer algo. Trouxe a pizza quadrada daquele lugar.

– Você… voltou! Pensei que nunca mais voltaria. Me desculpa! Me desculpa tanto, por favor! Eu fui tão grosseiro! Tão estúpido! Eu sei, eu sei! Eu gritei de forma que não deveria ter gritado com ninguém. Me desculpe! Só quero você de volta!.

– Eu voltei, não é? É tudo que importa agora.

– Você sabe que eu tentei mudar isso em mim inúmeras vezes! Você via me esforço para ser diferente. Mas dessa vez, dessa vez eu prometo não fazer mais isso! 

– Eu voltei, é tudo que importa agora.

– Tudo que importa agora! Eu quis tanto que você voltasse!

– Eu sei, por isso eu voltei. É tudo que importa agora.

– Isso! Tudo que importa agora! Nosso livro?

– Nosso romance?

– Eles trouxeram finalmente!

– A editora entregou hoje de manhã. Agora coma a pizza, você tem fome.

– Pizza? Mas acabei de acordar!

– É uma ocasião especial. Nosso recomeço. 

– Está certo! Eu lhe prometi que escutaria mais, comerei então. Você está escutando essa música? Eu acordei ouvindo e não sei de onde vem. Essa pizza não tem gosto de nada. Mô, cadê você? Mô?

“Nem na sala, nem no corredor, nem no quarto. Ele sumiu. O que está acontecendo? Deixei o prato cair da minha mão e seus cacos caíram sobre meus pés sem me cortar. Está quebrado, tudo está quebrado”

– Calma, estou aqui.

– Pensei que houvesse partido novamente.

– Não, eu voltei. É tudo que importa agora.

– Eu te amo!

– Eu sei.

– Você me ama?

– Te amo mesmo dormindo até tarde.

– Você voltou, é tudo que importa agora…..

“Acordei. Deixei a janela aberta novamente. Está chovendo. Molhou tudo! Minha cabeça, meus travesseiros, as garrafas de vinho, o antidepressivo. Que combinação! Era um sonho, não é? Antes eu tivesse tido um pesadelo. A música? Ah, tá certo. Era uma recomendação aleatória do YouTube. Lembro de ter deixado a música tocando para conseguir dormir. Não consigo mais dormir sem barulho de algo, nem no escuro. Ainda é noite e quero voltar para o sonho. Quero voltar para a fantasia. Ela é tudo que importa agora”.

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O ÚLTIMO DESANIVERSÁRIO #9 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/06/bem-vindo-de-volta-9/ https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/06/bem-vindo-de-volta-9/#respond Sat, 06 Jul 2024 18:53:19 +0000 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/?p=268 1 minuto

– Falta alguns minutos apenas!

– Eu sei…

– Sábado vai ser ótimo! Todo mundo que eu gosto vai vir. Vou ganhar minha máquina de costura e finalmente começar a fazer meus vestidos! 

– Você parece animado…

– Estou sim. Você deveria estar também. 

– Como eu poderia? Vai ser o dia que eu irei me despedir de você.

Gustavo riu.

– Você ri porque não está percebendo o que vai acontecer. Nós vamos nos despedir. Pra sempre. 

– Eu acho que vai ser impossível eu te deixar totalmente. Uma coisa sua sempre voltará em algum momento, ou nunca vai ter saído, mas vai ta hibernando dentro de mim.

– Em um dia eu vou estar dentro de você, no outro, eu vou ter ido embora. Vai ser muito rápida a despedida. 

– Nós já estamos nos despedindo há muito tempo, só fui me tocar nisso agora. Então, se pensar bem, não vai ser de uma hora pra outra. E não vai ser assim. Quando eu acordar no sábado, você ainda estará lá, mas não seremos mais o mesmo que fomos por esses 18 anos.

– Eu estou acostumado a ser deixado. Não vai ser a primeira vez que alguém vai embora assim. 

– Eu sei. Nós sabemos muito bem. Mas você deveria ficar feliz por mim. Me distanciar de você vai ser bom pra mim.

– Como eu posso ficar feliz em saber que você está indo embora? Como você pode ficar feliz, sabendo que vai me deixar sozinho?

– Como você fica triste, sabendo que agora você vai ter forças para enfrentar o mundo sozinho? 

– Eu não vou conseguir.

– Sim, você vai. Você vai, porque eu vou. 

Houve silêncio na conversa. Apenas o ambiente reproduzia ruídos. 

– Eu sou sua identidade, suas características. Se eu sair da sua vida, Gustavo, você vai desaparecer! As pessoas te conhecem e te reconhecem por minha causa.

– E agora, eu quero ser reconhecido de outra maneira. Traçar um novo caminho, onde eu preciso me separar de você para ser visto como eu quero ser.

– Eu fui teu sustento durante todo esse tempo. Você só está vivo hoje por causa de mim. Você só não se matou por minha causa! E é assim que você me retribui? É assim que você vai me pagar?

Gustavo ficou em silêncio. Sabia que aquilo era, de certa forma, uma verdade, e não poderia ser ignorada – Eu sei. Mas se continuássemos dessa maneira, eu acho que não viveria muito tempo. E, se vivesse, não seria feliz totalmente.

– Eu te fazia tão mal assim? 

– Nem tão mal, nem tão bem. Eu acho que você fez o necessário para me deixar vivo, e isso foi bom o suficiente. 

– Eu…

– Eu…

– Fale.

– Não. Fale você.

– Eu… acho que você vai aparecer novamente na minha vida. É impossível me livrar totalmente de você. Em algum momento da minha vida, você voltará. Mas não sei se irei gostar disso. Só sei que agora você não é mais alguém que eu preciso ter aqui. 

– Nós vivemos momentos incríveis. Bons ou ruins, mas nós os vivemos juntos. E por muito tempo. 

– Eu sei! Mas agora eu amadureci. Ou, pelo menos, estou tentando amadurecer. Então eu te peço. Por favor, me deixe me livrar de você. É para minha saúde que você fique apenas como uma lembrança. 

– Você, mais que ninguém, deveria saber o mal que me faz em me deixar sozinho. 

– E você, mais que ninguém, deveria saber o bem que me faz em te deixar.

– Você está sendo insensível demais comigo. Por que isso? O que está acontecendo com você? Quem te deixou assim? Você não é assim! Você nunca foi assim! Quem te modificou?

– Eu mesmo. O mundo e eu me modificou. E foi longo o processo. E foi doloroso. E durou mais tempo do que gostaria. E foi menos prazeroso do que eu gostaria. E foi péssimo, mas foi bom! Foi ótimo! Porque eu já não sou mais aquilo que era. Eu quero fugir, correr para longe daquilo que eu fui. Mas também não quero por uma faixa em meus olhos e correr cegamente sem saber para onde estou indo, até porque é capaz que eu ande em círculos, como um cachorro cego, e acabar voltando para onde eu saí. Eu não sei para onde vou, tudo é escuro e tudo ainda vai ser enquanto eu viver. Certezas, só os deuses sabem, a mim só custa rever o passado e saber de onde eu vim, pois, assim, eu sei o que evitar. Você é algo do meu passado que eu preciso me livrar, e, para isso, tenho que te evitar neste momento. Duas coisas eu sei que serão negativas absolutas para mim: primeiro, eu nunca saberei para onde vou, nem até onde eu vou, e segundo, eu sei que nunca mais quero voltar a ser o que era. Não me arrependo de você, na verdade eu me orgulho, mas também não quero te manter perto de mim..

Houve silêncio, novamente. A música melancólica saía do celular e preenchia esse momento tão dolorosamente feliz. As palavras tristes da cantora traduziam a sombria dança que ocorria ali. Era a despedida de um encontro que durou anos. Ela se estendia absurda e cansativativamente. 

– Você me promete que não vai me esquecer? Você me promete que, mesmo que passem anos e anos, mesmo que a vida te traga sucesso, amor, amigos, família… mesmo me abandonando hoje, você promete, com os pés juntos, que nunca vai me esquecer?

– Eu prometo que te esquecer vai ser impossível! 

Houve um sorriso fraco, porém esperançoso.

– Obrigado. Era tudo que eu precisava ouvir.

– Obrigado por ter me ajudado tanto. Hoje, só tenho a te agradecer.

Uma onda de choque interrompe a cena. A porta foi aberta violentamente, deslocando o ar e quebrando o clima daquele cômodo.

– Gustavoooo!! Já é meia-noite!! PARABÉEEEEENS!!

– Obrigado, Gabriel! – Disse ele abraçando o irmão.

– Como se sente sabendo que agora pode ir legalmente pra cadeia?

– Aliviado – Ele riu.

– Ah, que bom! Eu desejo tudo de bom para ti! – Ele olhou para o irmão com confusão – ‘Tava chorando? Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu nada não. É só besteira adolescente. Eu estava só conversando comigo mesmo.

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O ÚLTIMO DESANIVERSÁRIO #8 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/06/bem-vindo-de-volta-8/ https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/06/bem-vindo-de-volta-8/#respond Sat, 06 Jul 2024 18:53:19 +0000 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/?p=267 1 minuto

– Falta alguns minutos apenas!

– Eu sei…

– Sábado vai ser ótimo! Todo mundo que eu gosto vai vir. Vou ganhar minha máquina de costura e finalmente começar a fazer meus vestidos! 

– Você parece animado…

– Estou sim. Você deveria estar também. 

– Como eu poderia? Vai ser o dia que eu irei me despedir de você.

Gustavo riu.

– Você ri porque não está percebendo o que vai acontecer. Nós vamos nos despedir. Pra sempre. 

– Eu acho que vai ser impossível eu te deixar totalmente. Uma coisa sua sempre voltará em algum momento, ou nunca vai ter saído, mas vai ta hibernando dentro de mim.

– Em um dia eu vou estar dentro de você, no outro, eu vou ter ido embora. Vai ser muito rápida a despedida. 

– Nós já estamos nos despedindo há muito tempo, só fui me tocar nisso agora. Então, se pensar bem, não vai ser de uma hora pra outra. E não vai ser assim. Quando eu acordar no sábado, você ainda estará lá, mas não seremos mais o mesmo que fomos por esses 18 anos.

– Eu estou acostumado a ser deixado. Não vai ser a primeira vez que alguém vai embora assim. 

– Eu sei. Nós sabemos muito bem. Mas você deveria ficar feliz por mim. Me distanciar de você vai ser bom pra mim.

– Como eu posso ficar feliz em saber que você está indo embora? Como você pode ficar feliz, sabendo que vai me deixar sozinho?

– Como você fica triste, sabendo que agora você vai ter forças para enfrentar o mundo sozinho? 

– Eu não vou conseguir.

– Sim, você vai. Você vai, porque eu vou. 

Houve silêncio na conversa. Apenas o ambiente reproduzia ruídos. 

– Eu sou sua identidade, suas características. Se eu sair da sua vida, Gustavo, você vai desaparecer! As pessoas te conhecem e te reconhecem por minha causa.

– E agora, eu quero ser reconhecido de outra maneira. Traçar um novo caminho, onde eu preciso me separar de você para ser visto como eu quero ser.

– Eu fui teu sustento durante todo esse tempo. Você só está vivo hoje por causa de mim. Você só não se matou por minha causa! E é assim que você me retribui? É assim que você vai me pagar?

Gustavo ficou em silêncio. Sabia que aquilo era, de certa forma, uma verdade, e não poderia ser ignorada – Eu sei. Mas se continuássemos dessa maneira, eu acho que não viveria muito tempo. E, se vivesse, não seria feliz totalmente.

– Eu te fazia tão mal assim? 

– Nem tão mal, nem tão bem. Eu acho que você fez o necessário para me deixar vivo, e isso foi bom o suficiente. 

– Eu…

– Eu…

– Fale.

– Não. Fale você.

– Eu… acho que você vai aparecer novamente na minha vida. É impossível me livrar totalmente de você. Em algum momento da minha vida, você voltará. Mas não sei se irei gostar disso. Só sei que agora você não é mais alguém que eu preciso ter aqui. 

– Nós vivemos momentos incríveis. Bons ou ruins, mas nós os vivemos juntos. E por muito tempo. 

– Eu sei! Mas agora eu amadureci. Ou, pelo menos, estou tentando amadurecer. Então eu te peço. Por favor, me deixe me livrar de você. É para minha saúde que você fique apenas como uma lembrança. 

– Você, mais que ninguém, deveria saber o mal que me faz em me deixar sozinho. 

– E você, mais que ninguém, deveria saber o bem que me faz em te deixar.

– Você está sendo insensível demais comigo. Por que isso? O que está acontecendo com você? Quem te deixou assim? Você não é assim! Você nunca foi assim! Quem te modificou?

– Eu mesmo. O mundo e eu me modificou. E foi longo o processo. E foi doloroso. E durou mais tempo do que gostaria. E foi menos prazeroso do que eu gostaria. E foi péssimo, mas foi bom! Foi ótimo! Porque eu já não sou mais aquilo que era. Eu quero fugir, correr para longe daquilo que eu fui. Mas também não quero por uma faixa em meus olhos e correr cegamente sem saber para onde estou indo, até porque é capaz que eu ande em círculos, como um cachorro cego, e acabar voltando para onde eu saí. Eu não sei para onde vou, tudo é escuro e tudo ainda vai ser enquanto eu viver. Certezas, só os deuses sabem, a mim só custa rever o passado e saber de onde eu vim, pois, assim, eu sei o que evitar. Você é algo do meu passado que eu preciso me livrar, e, para isso, tenho que te evitar neste momento. Duas coisas eu sei que serão negativas absolutas para mim: primeiro, eu nunca saberei para onde vou, nem até onde eu vou, e segundo, eu sei que nunca mais quero voltar a ser o que era. Não me arrependo de você, na verdade eu me orgulho, mas também não quero te manter perto de mim..

Houve silêncio, novamente. A música melancólica saía do celular e preenchia esse momento tão dolorosamente feliz. As palavras tristes da cantora traduziam a sombria dança que ocorria ali. Era a despedida de um encontro que durou anos. Ela se estendia absurda e cansativativamente. 

– Você me promete que não vai me esquecer? Você me promete que, mesmo que passem anos e anos, mesmo que a vida te traga sucesso, amor, amigos, família… mesmo me abandonando hoje, você promete, com os pés juntos, que nunca vai me esquecer?

– Eu prometo que te esquecer vai ser impossível! 

Houve um sorriso fraco, porém esperançoso.

– Obrigado. Era tudo que eu precisava ouvir.

– Obrigado por ter me ajudado tanto. Hoje, só tenho a te agradecer.

Uma onda de choque interrompe a cena. A porta foi aberta violentamente, deslocando o ar e quebrando o clima daquele cômodo.

– Gustavoooo!! Já é meia-noite!! PARABÉEEEEENS!!

– Obrigado, Gabriel! – Disse ele abraçando o irmão.

– Como se sente sabendo que agora pode ir legalmente pra cadeia?

– Aliviado – Ele riu.

– Ah, que bom! Eu desejo tudo de bom para ti! – Ele olhou para o irmão com confusão – ‘Tava chorando? Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu nada não. É só besteira adolescente. Eu estava só conversando comigo mesmo.

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O ÚLTIMO DESANIVERSÁRIO #7 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/06/bem-vindo-de-volta-7/ https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/06/bem-vindo-de-volta-7/#respond Sat, 06 Jul 2024 18:53:19 +0000 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/?p=266 1 minuto

– Falta alguns minutos apenas!

– Eu sei…

– Sábado vai ser ótimo! Todo mundo que eu gosto vai vir. Vou ganhar minha máquina de costura e finalmente começar a fazer meus vestidos! 

– Você parece animado…

– Estou sim. Você deveria estar também. 

– Como eu poderia? Vai ser o dia que eu irei me despedir de você.

Gustavo riu.

– Você ri porque não está percebendo o que vai acontecer. Nós vamos nos despedir. Pra sempre. 

– Eu acho que vai ser impossível eu te deixar totalmente. Uma coisa sua sempre voltará em algum momento, ou nunca vai ter saído, mas vai ta hibernando dentro de mim.

– Em um dia eu vou estar dentro de você, no outro, eu vou ter ido embora. Vai ser muito rápida a despedida. 

– Nós já estamos nos despedindo há muito tempo, só fui me tocar nisso agora. Então, se pensar bem, não vai ser de uma hora pra outra. E não vai ser assim. Quando eu acordar no sábado, você ainda estará lá, mas não seremos mais o mesmo que fomos por esses 18 anos.

– Eu estou acostumado a ser deixado. Não vai ser a primeira vez que alguém vai embora assim. 

– Eu sei. Nós sabemos muito bem. Mas você deveria ficar feliz por mim. Me distanciar de você vai ser bom pra mim.

– Como eu posso ficar feliz em saber que você está indo embora? Como você pode ficar feliz, sabendo que vai me deixar sozinho?

– Como você fica triste, sabendo que agora você vai ter forças para enfrentar o mundo sozinho? 

– Eu não vou conseguir.

– Sim, você vai. Você vai, porque eu vou. 

Houve silêncio na conversa. Apenas o ambiente reproduzia ruídos. 

– Eu sou sua identidade, suas características. Se eu sair da sua vida, Gustavo, você vai desaparecer! As pessoas te conhecem e te reconhecem por minha causa.

– E agora, eu quero ser reconhecido de outra maneira. Traçar um novo caminho, onde eu preciso me separar de você para ser visto como eu quero ser.

– Eu fui teu sustento durante todo esse tempo. Você só está vivo hoje por causa de mim. Você só não se matou por minha causa! E é assim que você me retribui? É assim que você vai me pagar?

Gustavo ficou em silêncio. Sabia que aquilo era, de certa forma, uma verdade, e não poderia ser ignorada – Eu sei. Mas se continuássemos dessa maneira, eu acho que não viveria muito tempo. E, se vivesse, não seria feliz totalmente.

– Eu te fazia tão mal assim? 

– Nem tão mal, nem tão bem. Eu acho que você fez o necessário para me deixar vivo, e isso foi bom o suficiente. 

– Eu…

– Eu…

– Fale.

– Não. Fale você.

– Eu… acho que você vai aparecer novamente na minha vida. É impossível me livrar totalmente de você. Em algum momento da minha vida, você voltará. Mas não sei se irei gostar disso. Só sei que agora você não é mais alguém que eu preciso ter aqui. 

– Nós vivemos momentos incríveis. Bons ou ruins, mas nós os vivemos juntos. E por muito tempo. 

– Eu sei! Mas agora eu amadureci. Ou, pelo menos, estou tentando amadurecer. Então eu te peço. Por favor, me deixe me livrar de você. É para minha saúde que você fique apenas como uma lembrança. 

– Você, mais que ninguém, deveria saber o mal que me faz em me deixar sozinho. 

– E você, mais que ninguém, deveria saber o bem que me faz em te deixar.

– Você está sendo insensível demais comigo. Por que isso? O que está acontecendo com você? Quem te deixou assim? Você não é assim! Você nunca foi assim! Quem te modificou?

– Eu mesmo. O mundo e eu me modificou. E foi longo o processo. E foi doloroso. E durou mais tempo do que gostaria. E foi menos prazeroso do que eu gostaria. E foi péssimo, mas foi bom! Foi ótimo! Porque eu já não sou mais aquilo que era. Eu quero fugir, correr para longe daquilo que eu fui. Mas também não quero por uma faixa em meus olhos e correr cegamente sem saber para onde estou indo, até porque é capaz que eu ande em círculos, como um cachorro cego, e acabar voltando para onde eu saí. Eu não sei para onde vou, tudo é escuro e tudo ainda vai ser enquanto eu viver. Certezas, só os deuses sabem, a mim só custa rever o passado e saber de onde eu vim, pois, assim, eu sei o que evitar. Você é algo do meu passado que eu preciso me livrar, e, para isso, tenho que te evitar neste momento. Duas coisas eu sei que serão negativas absolutas para mim: primeiro, eu nunca saberei para onde vou, nem até onde eu vou, e segundo, eu sei que nunca mais quero voltar a ser o que era. Não me arrependo de você, na verdade eu me orgulho, mas também não quero te manter perto de mim..

Houve silêncio, novamente. A música melancólica saía do celular e preenchia esse momento tão dolorosamente feliz. As palavras tristes da cantora traduziam a sombria dança que ocorria ali. Era a despedida de um encontro que durou anos. Ela se estendia absurda e cansativativamente. 

– Você me promete que não vai me esquecer? Você me promete que, mesmo que passem anos e anos, mesmo que a vida te traga sucesso, amor, amigos, família… mesmo me abandonando hoje, você promete, com os pés juntos, que nunca vai me esquecer?

– Eu prometo que te esquecer vai ser impossível! 

Houve um sorriso fraco, porém esperançoso.

– Obrigado. Era tudo que eu precisava ouvir.

– Obrigado por ter me ajudado tanto. Hoje, só tenho a te agradecer.

Uma onda de choque interrompe a cena. A porta foi aberta violentamente, deslocando o ar e quebrando o clima daquele cômodo.

– Gustavoooo!! Já é meia-noite!! PARABÉEEEEENS!!

– Obrigado, Gabriel! – Disse ele abraçando o irmão.

– Como se sente sabendo que agora pode ir legalmente pra cadeia?

– Aliviado – Ele riu.

– Ah, que bom! Eu desejo tudo de bom para ti! – Ele olhou para o irmão com confusão – ‘Tava chorando? Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu nada não. É só besteira adolescente. Eu estava só conversando comigo mesmo.

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O ÚLTIMO DESANIVERSÁRIO #6 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/06/bem-vindo-de-volta-6/ https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/06/bem-vindo-de-volta-6/#respond Sat, 06 Jul 2024 18:53:19 +0000 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/?p=265 1 minuto

– Falta alguns minutos apenas!

– Eu sei…

– Sábado vai ser ótimo! Todo mundo que eu gosto vai vir. Vou ganhar minha máquina de costura e finalmente começar a fazer meus vestidos! 

– Você parece animado…

– Estou sim. Você deveria estar também. 

– Como eu poderia? Vai ser o dia que eu irei me despedir de você.

Gustavo riu.

– Você ri porque não está percebendo o que vai acontecer. Nós vamos nos despedir. Pra sempre. 

– Eu acho que vai ser impossível eu te deixar totalmente. Uma coisa sua sempre voltará em algum momento, ou nunca vai ter saído, mas vai ta hibernando dentro de mim.

– Em um dia eu vou estar dentro de você, no outro, eu vou ter ido embora. Vai ser muito rápida a despedida. 

– Nós já estamos nos despedindo há muito tempo, só fui me tocar nisso agora. Então, se pensar bem, não vai ser de uma hora pra outra. E não vai ser assim. Quando eu acordar no sábado, você ainda estará lá, mas não seremos mais o mesmo que fomos por esses 18 anos.

– Eu estou acostumado a ser deixado. Não vai ser a primeira vez que alguém vai embora assim. 

– Eu sei. Nós sabemos muito bem. Mas você deveria ficar feliz por mim. Me distanciar de você vai ser bom pra mim.

– Como eu posso ficar feliz em saber que você está indo embora? Como você pode ficar feliz, sabendo que vai me deixar sozinho?

– Como você fica triste, sabendo que agora você vai ter forças para enfrentar o mundo sozinho? 

– Eu não vou conseguir.

– Sim, você vai. Você vai, porque eu vou. 

Houve silêncio na conversa. Apenas o ambiente reproduzia ruídos. 

– Eu sou sua identidade, suas características. Se eu sair da sua vida, Gustavo, você vai desaparecer! As pessoas te conhecem e te reconhecem por minha causa.

– E agora, eu quero ser reconhecido de outra maneira. Traçar um novo caminho, onde eu preciso me separar de você para ser visto como eu quero ser.

– Eu fui teu sustento durante todo esse tempo. Você só está vivo hoje por causa de mim. Você só não se matou por minha causa! E é assim que você me retribui? É assim que você vai me pagar?

Gustavo ficou em silêncio. Sabia que aquilo era, de certa forma, uma verdade, e não poderia ser ignorada – Eu sei. Mas se continuássemos dessa maneira, eu acho que não viveria muito tempo. E, se vivesse, não seria feliz totalmente.

– Eu te fazia tão mal assim? 

– Nem tão mal, nem tão bem. Eu acho que você fez o necessário para me deixar vivo, e isso foi bom o suficiente. 

– Eu…

– Eu…

– Fale.

– Não. Fale você.

– Eu… acho que você vai aparecer novamente na minha vida. É impossível me livrar totalmente de você. Em algum momento da minha vida, você voltará. Mas não sei se irei gostar disso. Só sei que agora você não é mais alguém que eu preciso ter aqui. 

– Nós vivemos momentos incríveis. Bons ou ruins, mas nós os vivemos juntos. E por muito tempo. 

– Eu sei! Mas agora eu amadureci. Ou, pelo menos, estou tentando amadurecer. Então eu te peço. Por favor, me deixe me livrar de você. É para minha saúde que você fique apenas como uma lembrança. 

– Você, mais que ninguém, deveria saber o mal que me faz em me deixar sozinho. 

– E você, mais que ninguém, deveria saber o bem que me faz em te deixar.

– Você está sendo insensível demais comigo. Por que isso? O que está acontecendo com você? Quem te deixou assim? Você não é assim! Você nunca foi assim! Quem te modificou?

– Eu mesmo. O mundo e eu me modificou. E foi longo o processo. E foi doloroso. E durou mais tempo do que gostaria. E foi menos prazeroso do que eu gostaria. E foi péssimo, mas foi bom! Foi ótimo! Porque eu já não sou mais aquilo que era. Eu quero fugir, correr para longe daquilo que eu fui. Mas também não quero por uma faixa em meus olhos e correr cegamente sem saber para onde estou indo, até porque é capaz que eu ande em círculos, como um cachorro cego, e acabar voltando para onde eu saí. Eu não sei para onde vou, tudo é escuro e tudo ainda vai ser enquanto eu viver. Certezas, só os deuses sabem, a mim só custa rever o passado e saber de onde eu vim, pois, assim, eu sei o que evitar. Você é algo do meu passado que eu preciso me livrar, e, para isso, tenho que te evitar neste momento. Duas coisas eu sei que serão negativas absolutas para mim: primeiro, eu nunca saberei para onde vou, nem até onde eu vou, e segundo, eu sei que nunca mais quero voltar a ser o que era. Não me arrependo de você, na verdade eu me orgulho, mas também não quero te manter perto de mim..

Houve silêncio, novamente. A música melancólica saía do celular e preenchia esse momento tão dolorosamente feliz. As palavras tristes da cantora traduziam a sombria dança que ocorria ali. Era a despedida de um encontro que durou anos. Ela se estendia absurda e cansativativamente. 

– Você me promete que não vai me esquecer? Você me promete que, mesmo que passem anos e anos, mesmo que a vida te traga sucesso, amor, amigos, família… mesmo me abandonando hoje, você promete, com os pés juntos, que nunca vai me esquecer?

– Eu prometo que te esquecer vai ser impossível! 

Houve um sorriso fraco, porém esperançoso.

– Obrigado. Era tudo que eu precisava ouvir.

– Obrigado por ter me ajudado tanto. Hoje, só tenho a te agradecer.

Uma onda de choque interrompe a cena. A porta foi aberta violentamente, deslocando o ar e quebrando o clima daquele cômodo.

– Gustavoooo!! Já é meia-noite!! PARABÉEEEEENS!!

– Obrigado, Gabriel! – Disse ele abraçando o irmão.

– Como se sente sabendo que agora pode ir legalmente pra cadeia?

– Aliviado – Ele riu.

– Ah, que bom! Eu desejo tudo de bom para ti! – Ele olhou para o irmão com confusão – ‘Tava chorando? Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu nada não. É só besteira adolescente. Eu estava só conversando comigo mesmo.

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O ÚLTIMO DESANIVERSÁRIO #5 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/06/bem-vindo-de-volta-5/ https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/06/bem-vindo-de-volta-5/#respond Sat, 06 Jul 2024 18:53:19 +0000 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/?p=264 1 minuto

– Falta alguns minutos apenas!

– Eu sei…

– Sábado vai ser ótimo! Todo mundo que eu gosto vai vir. Vou ganhar minha máquina de costura e finalmente começar a fazer meus vestidos! 

– Você parece animado…

– Estou sim. Você deveria estar também. 

– Como eu poderia? Vai ser o dia que eu irei me despedir de você.

Gustavo riu.

– Você ri porque não está percebendo o que vai acontecer. Nós vamos nos despedir. Pra sempre. 

– Eu acho que vai ser impossível eu te deixar totalmente. Uma coisa sua sempre voltará em algum momento, ou nunca vai ter saído, mas vai ta hibernando dentro de mim.

– Em um dia eu vou estar dentro de você, no outro, eu vou ter ido embora. Vai ser muito rápida a despedida. 

– Nós já estamos nos despedindo há muito tempo, só fui me tocar nisso agora. Então, se pensar bem, não vai ser de uma hora pra outra. E não vai ser assim. Quando eu acordar no sábado, você ainda estará lá, mas não seremos mais o mesmo que fomos por esses 18 anos.

– Eu estou acostumado a ser deixado. Não vai ser a primeira vez que alguém vai embora assim. 

– Eu sei. Nós sabemos muito bem. Mas você deveria ficar feliz por mim. Me distanciar de você vai ser bom pra mim.

– Como eu posso ficar feliz em saber que você está indo embora? Como você pode ficar feliz, sabendo que vai me deixar sozinho?

– Como você fica triste, sabendo que agora você vai ter forças para enfrentar o mundo sozinho? 

– Eu não vou conseguir.

– Sim, você vai. Você vai, porque eu vou. 

Houve silêncio na conversa. Apenas o ambiente reproduzia ruídos. 

– Eu sou sua identidade, suas características. Se eu sair da sua vida, Gustavo, você vai desaparecer! As pessoas te conhecem e te reconhecem por minha causa.

– E agora, eu quero ser reconhecido de outra maneira. Traçar um novo caminho, onde eu preciso me separar de você para ser visto como eu quero ser.

– Eu fui teu sustento durante todo esse tempo. Você só está vivo hoje por causa de mim. Você só não se matou por minha causa! E é assim que você me retribui? É assim que você vai me pagar?

Gustavo ficou em silêncio. Sabia que aquilo era, de certa forma, uma verdade, e não poderia ser ignorada – Eu sei. Mas se continuássemos dessa maneira, eu acho que não viveria muito tempo. E, se vivesse, não seria feliz totalmente.

– Eu te fazia tão mal assim? 

– Nem tão mal, nem tão bem. Eu acho que você fez o necessário para me deixar vivo, e isso foi bom o suficiente. 

– Eu…

– Eu…

– Fale.

– Não. Fale você.

– Eu… acho que você vai aparecer novamente na minha vida. É impossível me livrar totalmente de você. Em algum momento da minha vida, você voltará. Mas não sei se irei gostar disso. Só sei que agora você não é mais alguém que eu preciso ter aqui. 

– Nós vivemos momentos incríveis. Bons ou ruins, mas nós os vivemos juntos. E por muito tempo. 

– Eu sei! Mas agora eu amadureci. Ou, pelo menos, estou tentando amadurecer. Então eu te peço. Por favor, me deixe me livrar de você. É para minha saúde que você fique apenas como uma lembrança. 

– Você, mais que ninguém, deveria saber o mal que me faz em me deixar sozinho. 

– E você, mais que ninguém, deveria saber o bem que me faz em te deixar.

– Você está sendo insensível demais comigo. Por que isso? O que está acontecendo com você? Quem te deixou assim? Você não é assim! Você nunca foi assim! Quem te modificou?

– Eu mesmo. O mundo e eu me modificou. E foi longo o processo. E foi doloroso. E durou mais tempo do que gostaria. E foi menos prazeroso do que eu gostaria. E foi péssimo, mas foi bom! Foi ótimo! Porque eu já não sou mais aquilo que era. Eu quero fugir, correr para longe daquilo que eu fui. Mas também não quero por uma faixa em meus olhos e correr cegamente sem saber para onde estou indo, até porque é capaz que eu ande em círculos, como um cachorro cego, e acabar voltando para onde eu saí. Eu não sei para onde vou, tudo é escuro e tudo ainda vai ser enquanto eu viver. Certezas, só os deuses sabem, a mim só custa rever o passado e saber de onde eu vim, pois, assim, eu sei o que evitar. Você é algo do meu passado que eu preciso me livrar, e, para isso, tenho que te evitar neste momento. Duas coisas eu sei que serão negativas absolutas para mim: primeiro, eu nunca saberei para onde vou, nem até onde eu vou, e segundo, eu sei que nunca mais quero voltar a ser o que era. Não me arrependo de você, na verdade eu me orgulho, mas também não quero te manter perto de mim..

Houve silêncio, novamente. A música melancólica saía do celular e preenchia esse momento tão dolorosamente feliz. As palavras tristes da cantora traduziam a sombria dança que ocorria ali. Era a despedida de um encontro que durou anos. Ela se estendia absurda e cansativativamente. 

– Você me promete que não vai me esquecer? Você me promete que, mesmo que passem anos e anos, mesmo que a vida te traga sucesso, amor, amigos, família… mesmo me abandonando hoje, você promete, com os pés juntos, que nunca vai me esquecer?

– Eu prometo que te esquecer vai ser impossível! 

Houve um sorriso fraco, porém esperançoso.

– Obrigado. Era tudo que eu precisava ouvir.

– Obrigado por ter me ajudado tanto. Hoje, só tenho a te agradecer.

Uma onda de choque interrompe a cena. A porta foi aberta violentamente, deslocando o ar e quebrando o clima daquele cômodo.

– Gustavoooo!! Já é meia-noite!! PARABÉEEEEENS!!

– Obrigado, Gabriel! – Disse ele abraçando o irmão.

– Como se sente sabendo que agora pode ir legalmente pra cadeia?

– Aliviado – Ele riu.

– Ah, que bom! Eu desejo tudo de bom para ti! – Ele olhou para o irmão com confusão – ‘Tava chorando? Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu nada não. É só besteira adolescente. Eu estava só conversando comigo mesmo.

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– Falta alguns minutos apenas!

– Eu sei…

– Sábado vai ser ótimo! Todo mundo que eu gosto vai vir. Vou ganhar minha máquina de costura e finalmente começar a fazer meus vestidos! 

– Você parece animado…

– Estou sim. Você deveria estar também. 

– Como eu poderia? Vai ser o dia que eu irei me despedir de você.

Gustavo riu.

– Você ri porque não está percebendo o que vai acontecer. Nós vamos nos despedir. Pra sempre. 

– Eu acho que vai ser impossível eu te deixar totalmente. Uma coisa sua sempre voltará em algum momento, ou nunca vai ter saído, mas vai ta hibernando dentro de mim.

– Em um dia eu vou estar dentro de você, no outro, eu vou ter ido embora. Vai ser muito rápida a despedida. 

– Nós já estamos nos despedindo há muito tempo, só fui me tocar nisso agora. Então, se pensar bem, não vai ser de uma hora pra outra. E não vai ser assim. Quando eu acordar no sábado, você ainda estará lá, mas não seremos mais o mesmo que fomos por esses 18 anos.

– Eu estou acostumado a ser deixado. Não vai ser a primeira vez que alguém vai embora assim. 

– Eu sei. Nós sabemos muito bem. Mas você deveria ficar feliz por mim. Me distanciar de você vai ser bom pra mim.

– Como eu posso ficar feliz em saber que você está indo embora? Como você pode ficar feliz, sabendo que vai me deixar sozinho?

– Como você fica triste, sabendo que agora você vai ter forças para enfrentar o mundo sozinho? 

– Eu não vou conseguir.

– Sim, você vai. Você vai, porque eu vou. 

Houve silêncio na conversa. Apenas o ambiente reproduzia ruídos. 

– Eu sou sua identidade, suas características. Se eu sair da sua vida, Gustavo, você vai desaparecer! As pessoas te conhecem e te reconhecem por minha causa.

– E agora, eu quero ser reconhecido de outra maneira. Traçar um novo caminho, onde eu preciso me separar de você para ser visto como eu quero ser.

– Eu fui teu sustento durante todo esse tempo. Você só está vivo hoje por causa de mim. Você só não se matou por minha causa! E é assim que você me retribui? É assim que você vai me pagar?

Gustavo ficou em silêncio. Sabia que aquilo era, de certa forma, uma verdade, e não poderia ser ignorada – Eu sei. Mas se continuássemos dessa maneira, eu acho que não viveria muito tempo. E, se vivesse, não seria feliz totalmente.

– Eu te fazia tão mal assim? 

– Nem tão mal, nem tão bem. Eu acho que você fez o necessário para me deixar vivo, e isso foi bom o suficiente. 

– Eu…

– Eu…

– Fale.

– Não. Fale você.

– Eu… acho que você vai aparecer novamente na minha vida. É impossível me livrar totalmente de você. Em algum momento da minha vida, você voltará. Mas não sei se irei gostar disso. Só sei que agora você não é mais alguém que eu preciso ter aqui. 

– Nós vivemos momentos incríveis. Bons ou ruins, mas nós os vivemos juntos. E por muito tempo. 

– Eu sei! Mas agora eu amadureci. Ou, pelo menos, estou tentando amadurecer. Então eu te peço. Por favor, me deixe me livrar de você. É para minha saúde que você fique apenas como uma lembrança. 

– Você, mais que ninguém, deveria saber o mal que me faz em me deixar sozinho. 

– E você, mais que ninguém, deveria saber o bem que me faz em te deixar.

– Você está sendo insensível demais comigo. Por que isso? O que está acontecendo com você? Quem te deixou assim? Você não é assim! Você nunca foi assim! Quem te modificou?

– Eu mesmo. O mundo e eu me modificou. E foi longo o processo. E foi doloroso. E durou mais tempo do que gostaria. E foi menos prazeroso do que eu gostaria. E foi péssimo, mas foi bom! Foi ótimo! Porque eu já não sou mais aquilo que era. Eu quero fugir, correr para longe daquilo que eu fui. Mas também não quero por uma faixa em meus olhos e correr cegamente sem saber para onde estou indo, até porque é capaz que eu ande em círculos, como um cachorro cego, e acabar voltando para onde eu saí. Eu não sei para onde vou, tudo é escuro e tudo ainda vai ser enquanto eu viver. Certezas, só os deuses sabem, a mim só custa rever o passado e saber de onde eu vim, pois, assim, eu sei o que evitar. Você é algo do meu passado que eu preciso me livrar, e, para isso, tenho que te evitar neste momento. Duas coisas eu sei que serão negativas absolutas para mim: primeiro, eu nunca saberei para onde vou, nem até onde eu vou, e segundo, eu sei que nunca mais quero voltar a ser o que era. Não me arrependo de você, na verdade eu me orgulho, mas também não quero te manter perto de mim..

Houve silêncio, novamente. A música melancólica saía do celular e preenchia esse momento tão dolorosamente feliz. As palavras tristes da cantora traduziam a sombria dança que ocorria ali. Era a despedida de um encontro que durou anos. Ela se estendia absurda e cansativativamente. 

– Você me promete que não vai me esquecer? Você me promete que, mesmo que passem anos e anos, mesmo que a vida te traga sucesso, amor, amigos, família… mesmo me abandonando hoje, você promete, com os pés juntos, que nunca vai me esquecer?

– Eu prometo que te esquecer vai ser impossível! 

Houve um sorriso fraco, porém esperançoso.

– Obrigado. Era tudo que eu precisava ouvir.

– Obrigado por ter me ajudado tanto. Hoje, só tenho a te agradecer.

Uma onda de choque interrompe a cena. A porta foi aberta violentamente, deslocando o ar e quebrando o clima daquele cômodo.

– Gustavoooo!! Já é meia-noite!! PARABÉEEEEENS!!

– Obrigado, Gabriel! – Disse ele abraçando o irmão.

– Como se sente sabendo que agora pode ir legalmente pra cadeia?

– Aliviado – Ele riu.

– Ah, que bom! Eu desejo tudo de bom para ti! – Ele olhou para o irmão com confusão – ‘Tava chorando? Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu nada não. É só besteira adolescente. Eu estava só conversando comigo mesmo.

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– Falta alguns minutos apenas!

– Eu sei…

– Sábado vai ser ótimo! Todo mundo que eu gosto vai vir. Vou ganhar minha máquina de costura e finalmente começar a fazer meus vestidos! 

– Você parece animado…

– Estou sim. Você deveria estar também. 

– Como eu poderia? Vai ser o dia que eu irei me despedir de você.

Gustavo riu.

– Você ri porque não está percebendo o que vai acontecer. Nós vamos nos despedir. Pra sempre. 

– Eu acho que vai ser impossível eu te deixar totalmente. Uma coisa sua sempre voltará em algum momento, ou nunca vai ter saído, mas vai ta hibernando dentro de mim.

– Em um dia eu vou estar dentro de você, no outro, eu vou ter ido embora. Vai ser muito rápida a despedida. 

– Nós já estamos nos despedindo há muito tempo, só fui me tocar nisso agora. Então, se pensar bem, não vai ser de uma hora pra outra. E não vai ser assim. Quando eu acordar no sábado, você ainda estará lá, mas não seremos mais o mesmo que fomos por esses 18 anos.

– Eu estou acostumado a ser deixado. Não vai ser a primeira vez que alguém vai embora assim. 

– Eu sei. Nós sabemos muito bem. Mas você deveria ficar feliz por mim. Me distanciar de você vai ser bom pra mim.

– Como eu posso ficar feliz em saber que você está indo embora? Como você pode ficar feliz, sabendo que vai me deixar sozinho?

– Como você fica triste, sabendo que agora você vai ter forças para enfrentar o mundo sozinho? 

– Eu não vou conseguir.

– Sim, você vai. Você vai, porque eu vou. 

Houve silêncio na conversa. Apenas o ambiente reproduzia ruídos. 

– Eu sou sua identidade, suas características. Se eu sair da sua vida, Gustavo, você vai desaparecer! As pessoas te conhecem e te reconhecem por minha causa.

– E agora, eu quero ser reconhecido de outra maneira. Traçar um novo caminho, onde eu preciso me separar de você para ser visto como eu quero ser.

– Eu fui teu sustento durante todo esse tempo. Você só está vivo hoje por causa de mim. Você só não se matou por minha causa! E é assim que você me retribui? É assim que você vai me pagar?

Gustavo ficou em silêncio. Sabia que aquilo era, de certa forma, uma verdade, e não poderia ser ignorada – Eu sei. Mas se continuássemos dessa maneira, eu acho que não viveria muito tempo. E, se vivesse, não seria feliz totalmente.

– Eu te fazia tão mal assim? 

– Nem tão mal, nem tão bem. Eu acho que você fez o necessário para me deixar vivo, e isso foi bom o suficiente. 

– Eu…

– Eu…

– Fale.

– Não. Fale você.

– Eu… acho que você vai aparecer novamente na minha vida. É impossível me livrar totalmente de você. Em algum momento da minha vida, você voltará. Mas não sei se irei gostar disso. Só sei que agora você não é mais alguém que eu preciso ter aqui. 

– Nós vivemos momentos incríveis. Bons ou ruins, mas nós os vivemos juntos. E por muito tempo. 

– Eu sei! Mas agora eu amadureci. Ou, pelo menos, estou tentando amadurecer. Então eu te peço. Por favor, me deixe me livrar de você. É para minha saúde que você fique apenas como uma lembrança. 

– Você, mais que ninguém, deveria saber o mal que me faz em me deixar sozinho. 

– E você, mais que ninguém, deveria saber o bem que me faz em te deixar.

– Você está sendo insensível demais comigo. Por que isso? O que está acontecendo com você? Quem te deixou assim? Você não é assim! Você nunca foi assim! Quem te modificou?

– Eu mesmo. O mundo e eu me modificou. E foi longo o processo. E foi doloroso. E durou mais tempo do que gostaria. E foi menos prazeroso do que eu gostaria. E foi péssimo, mas foi bom! Foi ótimo! Porque eu já não sou mais aquilo que era. Eu quero fugir, correr para longe daquilo que eu fui. Mas também não quero por uma faixa em meus olhos e correr cegamente sem saber para onde estou indo, até porque é capaz que eu ande em círculos, como um cachorro cego, e acabar voltando para onde eu saí. Eu não sei para onde vou, tudo é escuro e tudo ainda vai ser enquanto eu viver. Certezas, só os deuses sabem, a mim só custa rever o passado e saber de onde eu vim, pois, assim, eu sei o que evitar. Você é algo do meu passado que eu preciso me livrar, e, para isso, tenho que te evitar neste momento. Duas coisas eu sei que serão negativas absolutas para mim: primeiro, eu nunca saberei para onde vou, nem até onde eu vou, e segundo, eu sei que nunca mais quero voltar a ser o que era. Não me arrependo de você, na verdade eu me orgulho, mas também não quero te manter perto de mim..

Houve silêncio, novamente. A música melancólica saía do celular e preenchia esse momento tão dolorosamente feliz. As palavras tristes da cantora traduziam a sombria dança que ocorria ali. Era a despedida de um encontro que durou anos. Ela se estendia absurda e cansativativamente. 

– Você me promete que não vai me esquecer? Você me promete que, mesmo que passem anos e anos, mesmo que a vida te traga sucesso, amor, amigos, família… mesmo me abandonando hoje, você promete, com os pés juntos, que nunca vai me esquecer?

– Eu prometo que te esquecer vai ser impossível! 

Houve um sorriso fraco, porém esperançoso.

– Obrigado. Era tudo que eu precisava ouvir.

– Obrigado por ter me ajudado tanto. Hoje, só tenho a te agradecer.

Uma onda de choque interrompe a cena. A porta foi aberta violentamente, deslocando o ar e quebrando o clima daquele cômodo.

– Gustavoooo!! Já é meia-noite!! PARABÉEEEEENS!!

– Obrigado, Gabriel! – Disse ele abraçando o irmão.

– Como se sente sabendo que agora pode ir legalmente pra cadeia?

– Aliviado – Ele riu.

– Ah, que bom! Eu desejo tudo de bom para ti! – Ele olhou para o irmão com confusão – ‘Tava chorando? Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu nada não. É só besteira adolescente. Eu estava só conversando comigo mesmo.

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O ÚLTIMO DESANIVERSÁRIO #2 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/06/bem-vindo-de-volta-2/ https://blogvenda.neptuneinc.com.br/2024/07/06/bem-vindo-de-volta-2/#respond Sat, 06 Jul 2024 18:53:19 +0000 https://blogvenda.neptuneinc.com.br/?p=261 1 minuto

– Falta alguns minutos apenas!

– Eu sei…

– Sábado vai ser ótimo! Todo mundo que eu gosto vai vir. Vou ganhar minha máquina de costura e finalmente começar a fazer meus vestidos! 

– Você parece animado…

– Estou sim. Você deveria estar também. 

– Como eu poderia? Vai ser o dia que eu irei me despedir de você.

Gustavo riu.

– Você ri porque não está percebendo o que vai acontecer. Nós vamos nos despedir. Pra sempre. 

– Eu acho que vai ser impossível eu te deixar totalmente. Uma coisa sua sempre voltará em algum momento, ou nunca vai ter saído, mas vai ta hibernando dentro de mim.

– Em um dia eu vou estar dentro de você, no outro, eu vou ter ido embora. Vai ser muito rápida a despedida. 

– Nós já estamos nos despedindo há muito tempo, só fui me tocar nisso agora. Então, se pensar bem, não vai ser de uma hora pra outra. E não vai ser assim. Quando eu acordar no sábado, você ainda estará lá, mas não seremos mais o mesmo que fomos por esses 18 anos.

– Eu estou acostumado a ser deixado. Não vai ser a primeira vez que alguém vai embora assim. 

– Eu sei. Nós sabemos muito bem. Mas você deveria ficar feliz por mim. Me distanciar de você vai ser bom pra mim.

– Como eu posso ficar feliz em saber que você está indo embora? Como você pode ficar feliz, sabendo que vai me deixar sozinho?

– Como você fica triste, sabendo que agora você vai ter forças para enfrentar o mundo sozinho? 

– Eu não vou conseguir.

– Sim, você vai. Você vai, porque eu vou. 

Houve silêncio na conversa. Apenas o ambiente reproduzia ruídos. 

– Eu sou sua identidade, suas características. Se eu sair da sua vida, Gustavo, você vai desaparecer! As pessoas te conhecem e te reconhecem por minha causa.

– E agora, eu quero ser reconhecido de outra maneira. Traçar um novo caminho, onde eu preciso me separar de você para ser visto como eu quero ser.

– Eu fui teu sustento durante todo esse tempo. Você só está vivo hoje por causa de mim. Você só não se matou por minha causa! E é assim que você me retribui? É assim que você vai me pagar?

Gustavo ficou em silêncio. Sabia que aquilo era, de certa forma, uma verdade, e não poderia ser ignorada – Eu sei. Mas se continuássemos dessa maneira, eu acho que não viveria muito tempo. E, se vivesse, não seria feliz totalmente.

– Eu te fazia tão mal assim? 

– Nem tão mal, nem tão bem. Eu acho que você fez o necessário para me deixar vivo, e isso foi bom o suficiente. 

– Eu…

– Eu…

– Fale.

– Não. Fale você.

– Eu… acho que você vai aparecer novamente na minha vida. É impossível me livrar totalmente de você. Em algum momento da minha vida, você voltará. Mas não sei se irei gostar disso. Só sei que agora você não é mais alguém que eu preciso ter aqui. 

– Nós vivemos momentos incríveis. Bons ou ruins, mas nós os vivemos juntos. E por muito tempo. 

– Eu sei! Mas agora eu amadureci. Ou, pelo menos, estou tentando amadurecer. Então eu te peço. Por favor, me deixe me livrar de você. É para minha saúde que você fique apenas como uma lembrança. 

– Você, mais que ninguém, deveria saber o mal que me faz em me deixar sozinho. 

– E você, mais que ninguém, deveria saber o bem que me faz em te deixar.

– Você está sendo insensível demais comigo. Por que isso? O que está acontecendo com você? Quem te deixou assim? Você não é assim! Você nunca foi assim! Quem te modificou?

– Eu mesmo. O mundo e eu me modificou. E foi longo o processo. E foi doloroso. E durou mais tempo do que gostaria. E foi menos prazeroso do que eu gostaria. E foi péssimo, mas foi bom! Foi ótimo! Porque eu já não sou mais aquilo que era. Eu quero fugir, correr para longe daquilo que eu fui. Mas também não quero por uma faixa em meus olhos e correr cegamente sem saber para onde estou indo, até porque é capaz que eu ande em círculos, como um cachorro cego, e acabar voltando para onde eu saí. Eu não sei para onde vou, tudo é escuro e tudo ainda vai ser enquanto eu viver. Certezas, só os deuses sabem, a mim só custa rever o passado e saber de onde eu vim, pois, assim, eu sei o que evitar. Você é algo do meu passado que eu preciso me livrar, e, para isso, tenho que te evitar neste momento. Duas coisas eu sei que serão negativas absolutas para mim: primeiro, eu nunca saberei para onde vou, nem até onde eu vou, e segundo, eu sei que nunca mais quero voltar a ser o que era. Não me arrependo de você, na verdade eu me orgulho, mas também não quero te manter perto de mim..

Houve silêncio, novamente. A música melancólica saía do celular e preenchia esse momento tão dolorosamente feliz. As palavras tristes da cantora traduziam a sombria dança que ocorria ali. Era a despedida de um encontro que durou anos. Ela se estendia absurda e cansativativamente. 

– Você me promete que não vai me esquecer? Você me promete que, mesmo que passem anos e anos, mesmo que a vida te traga sucesso, amor, amigos, família… mesmo me abandonando hoje, você promete, com os pés juntos, que nunca vai me esquecer?

– Eu prometo que te esquecer vai ser impossível! 

Houve um sorriso fraco, porém esperançoso.

– Obrigado. Era tudo que eu precisava ouvir.

– Obrigado por ter me ajudado tanto. Hoje, só tenho a te agradecer.

Uma onda de choque interrompe a cena. A porta foi aberta violentamente, deslocando o ar e quebrando o clima daquele cômodo.

– Gustavoooo!! Já é meia-noite!! PARABÉEEEEENS!!

– Obrigado, Gabriel! – Disse ele abraçando o irmão.

– Como se sente sabendo que agora pode ir legalmente pra cadeia?

– Aliviado – Ele riu.

– Ah, que bom! Eu desejo tudo de bom para ti! – Ele olhou para o irmão com confusão – ‘Tava chorando? Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu nada não. É só besteira adolescente. Eu estava só conversando comigo mesmo.

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– Falta alguns minutos apenas!

– Eu sei…

– Sábado vai ser ótimo! Todo mundo que eu gosto vai vir. Vou ganhar minha máquina de costura e finalmente começar a fazer meus vestidos! 

– Você parece animado…

– Estou sim. Você deveria estar também. 

– Como eu poderia? Vai ser o dia que eu irei me despedir de você.

Gustavo riu.

– Você ri porque não está percebendo o que vai acontecer. Nós vamos nos despedir. Pra sempre. 

– Eu acho que vai ser impossível eu te deixar totalmente. Uma coisa sua sempre voltará em algum momento, ou nunca vai ter saído, mas vai ta hibernando dentro de mim.

– Em um dia eu vou estar dentro de você, no outro, eu vou ter ido embora. Vai ser muito rápida a despedida. 

– Nós já estamos nos despedindo há muito tempo, só fui me tocar nisso agora. Então, se pensar bem, não vai ser de uma hora pra outra. E não vai ser assim. Quando eu acordar no sábado, você ainda estará lá, mas não seremos mais o mesmo que fomos por esses 18 anos.

– Eu estou acostumado a ser deixado. Não vai ser a primeira vez que alguém vai embora assim. 

– Eu sei. Nós sabemos muito bem. Mas você deveria ficar feliz por mim. Me distanciar de você vai ser bom pra mim.

– Como eu posso ficar feliz em saber que você está indo embora? Como você pode ficar feliz, sabendo que vai me deixar sozinho?

– Como você fica triste, sabendo que agora você vai ter forças para enfrentar o mundo sozinho? 

– Eu não vou conseguir.

– Sim, você vai. Você vai, porque eu vou. 

Houve silêncio na conversa. Apenas o ambiente reproduzia ruídos. 

– Eu sou sua identidade, suas características. Se eu sair da sua vida, Gustavo, você vai desaparecer! As pessoas te conhecem e te reconhecem por minha causa.

– E agora, eu quero ser reconhecido de outra maneira. Traçar um novo caminho, onde eu preciso me separar de você para ser visto como eu quero ser.

– Eu fui teu sustento durante todo esse tempo. Você só está vivo hoje por causa de mim. Você só não se matou por minha causa! E é assim que você me retribui? É assim que você vai me pagar?

Gustavo ficou em silêncio. Sabia que aquilo era, de certa forma, uma verdade, e não poderia ser ignorada – Eu sei. Mas se continuássemos dessa maneira, eu acho que não viveria muito tempo. E, se vivesse, não seria feliz totalmente.

– Eu te fazia tão mal assim? 

– Nem tão mal, nem tão bem. Eu acho que você fez o necessário para me deixar vivo, e isso foi bom o suficiente. 

– Eu…

– Eu…

– Fale.

– Não. Fale você.

– Eu… acho que você vai aparecer novamente na minha vida. É impossível me livrar totalmente de você. Em algum momento da minha vida, você voltará. Mas não sei se irei gostar disso. Só sei que agora você não é mais alguém que eu preciso ter aqui. 

– Nós vivemos momentos incríveis. Bons ou ruins, mas nós os vivemos juntos. E por muito tempo. 

– Eu sei! Mas agora eu amadureci. Ou, pelo menos, estou tentando amadurecer. Então eu te peço. Por favor, me deixe me livrar de você. É para minha saúde que você fique apenas como uma lembrança. 

– Você, mais que ninguém, deveria saber o mal que me faz em me deixar sozinho. 

– E você, mais que ninguém, deveria saber o bem que me faz em te deixar.

– Você está sendo insensível demais comigo. Por que isso? O que está acontecendo com você? Quem te deixou assim? Você não é assim! Você nunca foi assim! Quem te modificou?

– Eu mesmo. O mundo e eu me modificou. E foi longo o processo. E foi doloroso. E durou mais tempo do que gostaria. E foi menos prazeroso do que eu gostaria. E foi péssimo, mas foi bom! Foi ótimo! Porque eu já não sou mais aquilo que era. Eu quero fugir, correr para longe daquilo que eu fui. Mas também não quero por uma faixa em meus olhos e correr cegamente sem saber para onde estou indo, até porque é capaz que eu ande em círculos, como um cachorro cego, e acabar voltando para onde eu saí. Eu não sei para onde vou, tudo é escuro e tudo ainda vai ser enquanto eu viver. Certezas, só os deuses sabem, a mim só custa rever o passado e saber de onde eu vim, pois, assim, eu sei o que evitar. Você é algo do meu passado que eu preciso me livrar, e, para isso, tenho que te evitar neste momento. Duas coisas eu sei que serão negativas absolutas para mim: primeiro, eu nunca saberei para onde vou, nem até onde eu vou, e segundo, eu sei que nunca mais quero voltar a ser o que era. Não me arrependo de você, na verdade eu me orgulho, mas também não quero te manter perto de mim..

Houve silêncio, novamente. A música melancólica saía do celular e preenchia esse momento tão dolorosamente feliz. As palavras tristes da cantora traduziam a sombria dança que ocorria ali. Era a despedida de um encontro que durou anos. Ela se estendia absurda e cansativativamente. 

– Você me promete que não vai me esquecer? Você me promete que, mesmo que passem anos e anos, mesmo que a vida te traga sucesso, amor, amigos, família… mesmo me abandonando hoje, você promete, com os pés juntos, que nunca vai me esquecer?

– Eu prometo que te esquecer vai ser impossível! 

Houve um sorriso fraco, porém esperançoso.

– Obrigado. Era tudo que eu precisava ouvir.

– Obrigado por ter me ajudado tanto. Hoje, só tenho a te agradecer.

Uma onda de choque interrompe a cena. A porta foi aberta violentamente, deslocando o ar e quebrando o clima daquele cômodo.

– Gustavoooo!! Já é meia-noite!! PARABÉEEEEENS!!

– Obrigado, Gabriel! – Disse ele abraçando o irmão.

– Como se sente sabendo que agora pode ir legalmente pra cadeia?

– Aliviado – Ele riu.

– Ah, que bom! Eu desejo tudo de bom para ti! – Ele olhou para o irmão com confusão – ‘Tava chorando? Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu nada não. É só besteira adolescente. Eu estava só conversando comigo mesmo.

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