1 minuto
– Falta alguns minutos apenas!
– Eu sei…
– Sábado vai ser ótimo! Todo mundo que eu gosto vai vir. Vou ganhar minha máquina de costura e finalmente começar a fazer meus vestidos!
– Você parece animado…
– Estou sim. Você deveria estar também.
– Como eu poderia? Vai ser o dia que eu irei me despedir de você.
Gustavo riu.
– Você ri porque não está percebendo o que vai acontecer. Nós vamos nos despedir. Pra sempre.
– Eu acho que vai ser impossível eu te deixar totalmente. Uma coisa sua sempre voltará em algum momento, ou nunca vai ter saído, mas vai ta hibernando dentro de mim.
– Em um dia eu vou estar dentro de você, no outro, eu vou ter ido embora. Vai ser muito rápida a despedida.
– Nós já estamos nos despedindo há muito tempo, só fui me tocar nisso agora. Então, se pensar bem, não vai ser de uma hora pra outra. E não vai ser assim. Quando eu acordar no sábado, você ainda estará lá, mas não seremos mais o mesmo que fomos por esses 18 anos.
– Eu estou acostumado a ser deixado. Não vai ser a primeira vez que alguém vai embora assim.
– Eu sei. Nós sabemos muito bem. Mas você deveria ficar feliz por mim. Me distanciar de você vai ser bom pra mim.
– Como eu posso ficar feliz em saber que você está indo embora? Como você pode ficar feliz, sabendo que vai me deixar sozinho?
– Como você fica triste, sabendo que agora você vai ter forças para enfrentar o mundo sozinho?
– Eu não vou conseguir.
– Sim, você vai. Você vai, porque eu vou.
Houve silêncio na conversa. Apenas o ambiente reproduzia ruídos.
– Eu sou sua identidade, suas características. Se eu sair da sua vida, Gustavo, você vai desaparecer! As pessoas te conhecem e te reconhecem por minha causa.
– E agora, eu quero ser reconhecido de outra maneira. Traçar um novo caminho, onde eu preciso me separar de você para ser visto como eu quero ser.
– Eu fui teu sustento durante todo esse tempo. Você só está vivo hoje por causa de mim. Você só não se matou por minha causa! E é assim que você me retribui? É assim que você vai me pagar?
Gustavo ficou em silêncio. Sabia que aquilo era, de certa forma, uma verdade, e não poderia ser ignorada – Eu sei. Mas se continuássemos dessa maneira, eu acho que não viveria muito tempo. E, se vivesse, não seria feliz totalmente.
– Eu te fazia tão mal assim?
– Nem tão mal, nem tão bem. Eu acho que você fez o necessário para me deixar vivo, e isso foi bom o suficiente.
– Eu…
– Eu…
– Fale.
– Não. Fale você.
– Eu… acho que você vai aparecer novamente na minha vida. É impossível me livrar totalmente de você. Em algum momento da minha vida, você voltará. Mas não sei se irei gostar disso. Só sei que agora você não é mais alguém que eu preciso ter aqui.
– Nós vivemos momentos incríveis. Bons ou ruins, mas nós os vivemos juntos. E por muito tempo.
– Eu sei! Mas agora eu amadureci. Ou, pelo menos, estou tentando amadurecer. Então eu te peço. Por favor, me deixe me livrar de você. É para minha saúde que você fique apenas como uma lembrança.
– Você, mais que ninguém, deveria saber o mal que me faz em me deixar sozinho.
– E você, mais que ninguém, deveria saber o bem que me faz em te deixar.
– Você está sendo insensível demais comigo. Por que isso? O que está acontecendo com você? Quem te deixou assim? Você não é assim! Você nunca foi assim! Quem te modificou?
– Eu mesmo. O mundo e eu me modificou. E foi longo o processo. E foi doloroso. E durou mais tempo do que gostaria. E foi menos prazeroso do que eu gostaria. E foi péssimo, mas foi bom! Foi ótimo! Porque eu já não sou mais aquilo que era. Eu quero fugir, correr para longe daquilo que eu fui. Mas também não quero por uma faixa em meus olhos e correr cegamente sem saber para onde estou indo, até porque é capaz que eu ande em círculos, como um cachorro cego, e acabar voltando para onde eu saí. Eu não sei para onde vou, tudo é escuro e tudo ainda vai ser enquanto eu viver. Certezas, só os deuses sabem, a mim só custa rever o passado e saber de onde eu vim, pois, assim, eu sei o que evitar. Você é algo do meu passado que eu preciso me livrar, e, para isso, tenho que te evitar neste momento. Duas coisas eu sei que serão negativas absolutas para mim: primeiro, eu nunca saberei para onde vou, nem até onde eu vou, e segundo, eu sei que nunca mais quero voltar a ser o que era. Não me arrependo de você, na verdade eu me orgulho, mas também não quero te manter perto de mim..
Houve silêncio, novamente. A música melancólica saía do celular e preenchia esse momento tão dolorosamente feliz. As palavras tristes da cantora traduziam a sombria dança que ocorria ali. Era a despedida de um encontro que durou anos. Ela se estendia absurda e cansativativamente.
– Você me promete que não vai me esquecer? Você me promete que, mesmo que passem anos e anos, mesmo que a vida te traga sucesso, amor, amigos, família… mesmo me abandonando hoje, você promete, com os pés juntos, que nunca vai me esquecer?
– Eu prometo que te esquecer vai ser impossível!
Houve um sorriso fraco, porém esperançoso.
– Obrigado. Era tudo que eu precisava ouvir.
– Obrigado por ter me ajudado tanto. Hoje, só tenho a te agradecer.
Uma onda de choque interrompe a cena. A porta foi aberta violentamente, deslocando o ar e quebrando o clima daquele cômodo.
– Gustavoooo!! Já é meia-noite!! PARABÉEEEEENS!!
– Obrigado, Gabriel! – Disse ele abraçando o irmão.
– Como se sente sabendo que agora pode ir legalmente pra cadeia?
– Aliviado – Ele riu.
– Ah, que bom! Eu desejo tudo de bom para ti! – Ele olhou para o irmão com confusão – ‘Tava chorando? Aconteceu alguma coisa?
– Aconteceu nada não. É só besteira adolescente. Eu estava só conversando comigo mesmo.

